Quarta-feira, dia 16 de junho de 2004, recebi a rápida visita em meu consultório do ator e diretor de teatro Aléssio Di Pascucci para me convidar para assistir “Abandonos” no teatro Gino Carbonari. Deixou alguns panfletos de muito bom gosto e de grande expressão artística, com imagem de Willian Blake e texto do próprio Aléssio. Esse panfleto fez com que eu desejasse, ainda mais, prestigiar “O abandono” em cena. Convidei alguns amigos mas ninguém pôde ir comigo; para um deles cheguei a ler o texto poético na rua, minutos antes da apresentação: “O mundo a todo momento nos propõe matrimônios, sejam eles com valores, padrões, comportamentos… Desejosos de encontrarmos a felicidade prometida, damos a nossa mão, aceitamos o enlace. No entanto, nem sempre a aliança é colocada em nossos dedos nos altares da vida. E quando isso ocorre, só nos resta tocar com as mãos vazias o nosso abandono, e nele tentarmos encontrar novamente um sentido para nossos sonhos.” Mas ele também não “pôde” ir e por mais que eu me sentisse um pouco “abandonada” naquele momento, não desisti e segui sozinha.

Quando a porta do teatro se abriu… senti um cheiro muito bom de incenso, aí veio a música de fundo, vestidos de noivas pendurados. Neles, havia frases pregadas, onde era nítido todo o sentimento de abandono e decepção das mulheres que os vestiram um dia. Foi uma experiência muito sensorial. Esse primeiro momento foi chamado de “Instalação”, cujo tema era: “Vão-se os sonhos, ficam os trajes”. E o violino, de Dimas Carte, continuava a ser tocado. Foi-se criando um clima de introspecção. Na sequência, inicia-se o vídeo “Oblivium” e, para a surpresa de muitos, Aléssio interpreta muito bem as dores de uma noiva abandonada. A noiva, a princípio, está caída no chão com o vestido semiaberto; na sequência, ela sobe uma escada lentamente, rola da escada, sofre pelo prazer que deixou de ter ao lado de seu amado e pela ausência dele. E, numa luta constante entre “viver e morrer”, decide seguir “escada acima”, simbolizando a escolha pela vida.

Em seguida, vem o monólogo, com a brilhante atuação de Karina Gomes e iluminação de Robert Coelho. A personagem fora abandonada pelo noivo e oscila entre momentos de lucidez e de “insanidade”; procura achar explicações para tal abandono, colocando-se muitas vezes como a culpada da situação e pedia que ele voltasse. Nesse momento, percebe- se a total falta de autoestima em que se encontrava aquela mulher. Tem a cena em que ela agradecia pelos bombons que ganhara e promete comprar-lhe muitos bombons, dizendo capaz de entender os motivos dele tê-la abandonado – “afinal, ela era má e não lhe retribuíra os bombons”. E, em outros momentos, com muita raiva, ela o abomina. Numa determinada cena, ela dança com o paletó do ex-noivo, como se estivesse dançando com ele mesmo. Ela interpreta muito bem os prazeres daquela dança e daquele encontro e, nesse momento, a atriz mostra muita sensualidade. Na cena final, ela entra por um corredor de iluminação e vai retirando os “sete véus”. É como se ela estivesse representando as dores que passou e enfrentou e, acima de tudo, acreditou que algo melhor estava por vir. O público, bastante heterogêneo, vibrou e aplaudiu em pé. Mas, é claro que sempre tem um comentário do tipo: “talvez um pouco forte para Botucatu”. Já ouvi muito essa frase desde que voltei e sempre me pergunto: por quê? Por que algumas pessoas ainda são tão conservadoras? Por que Botucatu tem que ficar presa a estigmas retrógrados? Por que não ver o novo? Será que a arte estava tão distante da realidade? Será que muitas mulheres que foram abandonadas não se sentiram exatamente daquela forma?

Gostaria parabenizar a todos os responsáveis por esse belo espetáculo, pelo profissionalismo, sensibilidade, coragem e, acima de tudo, por mostrarem, através da arte, que a vida é dinâmica e que todos estamos sujeitos a bons e maus momentos. E que é preciso investir nestes aspectos de vida para que haja transformações, para que possamos dizer novamente “sim”, cada vez que tivermos essa oportunidade.

Ana Lúcia Gonçalves – psicóloga, psicopedagoga, pedagoga e acupunturista. Idealizadora e coordenadora do projeto “Psicólogos Brasileiros Online”. Artigo originalmente publicado na coluna “No Divã” do jornal “Diário da Serra” em junho de 2004. Atualizado em julho de 2020.

×