“A águia empurrou gentilmente os filhotes para a beira do ninho. Seu coração trepidava com emoções conflitantes, enquanto sentia a resistência deles. Por que será que a emoção de voar precisa começar com o medo de cair? Pensou…

Essa pergunta eterna ainda estava sem resposta pra ela. Como na tradição da espécie, seu ninho localizava-se no alto de uma saliência, num rochedo escarpado. Será possível que desta vez não dará certo? Pensou…

A despeito de seus medos a ave sabia que era tempo. Sua missão materna estava praticamente terminada. Restava uma última tarefa: o empurrão. A águia reuniu coragem, através de uma sabedoria inata. Enquanto os filhotes não descobrissem suas asas, não haveria objetivos em suas vidas. Enquanto não aprendessem a voar, não compreenderiam o privilégio de ter nascido águia.

O empurrão era o maior presente que a águia-mãe tinha para lhes dar. Era seu supremo ato de amor. E por isso, um a um, ela os empurrou, e eles voaram!” (David Mcnally).

O desenvolvimento da autonomia não ocorre de repente na idade adulta, vai acontecendo aos poucos. Assim, como o desenvolvimento emocional caracteriza-se por um jogo de progressões e regressões, também o desenvolvimento da autonomia e da independência estão mesclados com as necessidades de dependência, de se sentir cuidado e protegido.

Educar para a autonomia implica, fundamentalmente, dar responsabilidades à criança, deixando, pouco a pouco, de fazer por ela o que já consegue fazer sozinha ou deixar de intervir em situações em que a criança pode resolver por conta própria. A atitude de não interferir, sempre que possível, estimula a independência e o crescimento.

Quando pensamos no desenvolvimento da autonomia no ambiente escolar, podemos pensar que a criança que não sabe trabalhar de forma organizada poderá ter problemas para acompanhar as atividades na escola e, consequentemente, pode apresentar dificuldade no aprendizado. A organização e a rotina da família, apesar de ser um tema simples, é muito relevante para o desenvolvimento psicológico da criança e para que tenha um bom rendimento escolar. Em casa, é importante que a família tenha horários para as atividades essenciais e a criança deve ser informada deles e, de preferência, essas combinações devem ser feitas em conjunto. À medida que participa de atividades com horário estabelecido, ela irá internalizando noções de tempo (“agora”, “antes”, “depois”) e, também, vai se orientando neste quesito. Todos esses recursos são relevantes para a aprendizagem escolar. Sendo assim, é necessário que as principais atividades diárias da criança sejam realizadas dentro de horários convenientes.

Os pais também devem estar cientes de que quando a criança passa a frequentar a escola, ela se depara com uma série de exigências que nem sempre consegue superar sem uma ajuda efetiva por parte da família. Para obter um bom desempenho, não basta que vá a escola e faça as lições; ela também tem que aprender a se relacionar com pessoas desconhecidas e com as diversidades, participar de um grupo social, diferenciar os papeis de cada um dentro do ambiente escolar, respeitar regras e normas. Dessa forma, o envolvimento adequado dos pais é relevante para que ela alcance bons resultados escolares.

Estimular atividades que proporcionam tomada de decisão e autonomia nos filhos ajudam no desenvolvimento de seu senso de competência e de autocontrole, que parecem associados ao melhor desempenho escolar dessas crianças. Atentar-se à natureza e inspirar-se na mãe-águia te ajudará a permitir que seu filho cresça, desenvolva-se, torne-se independente!

Ana Lúcia Gonçalves – Psicóloga, Pedagoga, Psicopedagoga e acupunturista. Idealizadora e coordenadora do projeto “Psicólogos Brasileiros Online”. Artigo originalmente publicado na coluna “No Divã” do jornal “Diário da Serra” em 23 de abril de 2004. Atualizado em julho de 2020.

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